“Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais ela te conta, menos você sabe.” (Diane Arbus)

IMG_1825

“A Photograph Is a Secret About a Secret.

The More it Tells You the Less You Know.”


Quase 7 anos completos desde o dia em que tirei essa foto.
Foi no primeiro semestre da faculdade.
Lembro exatamente daquela semana em Outubro.
Havia inesperadamente nevado no meio do Outono, e eu, pela janela do meu quarto assistia a neve cair pela primeira vez — uma imagem bem lírica, eu diria se você também gosta de ver a vida com um toque de poesia  —  O banco do jardim que fazia parte da entrada do antigo dormitório desapareceu em algumas horas. Centímetros e mais centímetros de neve se acumulavam no chão e tudo parecia uma grande e larga manta branca que cobria a vista para o The Fenway, o parque a céu aberto do outro lado da rua.
Não tive coragem de ir lá fora. Me sentia despreparada. Eu usava um moletom cinza com um toque aveludado no fio. Era uma delícia de tão confortável. Nos pés era uma meia antiderrapante de cetim bege, que me fazia sentir descalça quando andava sobre o piso de carpete que pertencia àquele prédio robusto de 6 andares e que foi minha casa durante o primeiro ano de college life
A arquitetura do século XIX me fazia sentir dentro de um filme, tudo era tão histórico.
Minhas duas roomies entraram no quarto, eufóricas com a surpresa desse fenômeno natural tão incomum naquela época do ano. Me convidaram para me unir à elas e me jogar na neve também. Eu disse um simples: “Oh no, darlings, I’m kinda tired today…” Elas retrucaram: “Come on Taina, it’s just fun!” Deviam ter me achado uma chata. Eu não ligava. Tudo que eu conseguia pensar era: “Preciso de botas de neve, de um bom casaco e de luvas. Deus, luvas. Que chic! Sempre quis usar luvas.”
Como me expor ao frio sem estar preparada?
Esse era o argumento da minha razão para não ir lá fora naquela noite. Além disso já passava das nove, e eu ainda tinha um paper due para uma aula de Critical Thinking no dia seguinte. Eu sempre vivi no perigo de deixar tudo para a última hora.
Mais um resquício do Brasil habitando em mim. Uma feia mania.
Quando cruzei a porta do dormitório às dez da manhã do outro dia, me dei conta da imprudência que havia cometido comigo mesma: Como podia já ser Outubro e ainda não ter roupas de frio? Tudo bem que era meu primeiro semestre numa cidade que nevava, tudo bem que só esperávamos neve para o final de Novembro, mas e agora?
O vento era congelante, cortava o meu rosto, e eu já havia escorregado duas vezes na calçada. Eu só tinha sapatilhas.
E saltos.
Saltos de todos os tipos. Abertos, fechados, finos, bem altos, com brilho, sem brilho. Nada útil para o clima e o dia-a-dia que eu levava ali. Mas era bom saber que os saltos estavam lá.
Vai que.
É sempre bom ter opções para usar numa festa.
O trivial é necessário sempre. Mas o glamour, ah… o glamour é fundamental.
Campus Party da minha imaginação…
Saí da aula com as palavras do meu professor na cabeça: – Guys, just a side note: I know some of you are not from here (eu era a única aluna internacional da turma) so just to let you know you have to prepare for winter. It’s really cold. People joke that there is winter in USA, and there is winter in New England. Believe me, if you don’t have winter clothes, or boots, it’s time to get it. (eu era a única que não usava botas ou galochas de toda a turma) Don’t wait too long, it’s gonna get colder and colder. You’ll see. — E ele falava olhando para as minhas sapatilhas em matelassê, encharcadas pela neve que tinha derretido nos meus pés.
Depois disso, saí dali sem saber que faria a maior compra de roupas de inverno da minha vida.
Eram tantos casacos, luvas, echarpes, chapéus, cardigãs, botas e meias que voltei de táxi para o dormitório.
Era um caminho que gostava de fazer a pé. 25 minutos de caminhada observando cada detalhe era uma terapia pra mim. Ainda é.
Minha roomie californiana estava conversando no celular quando cheguei. Ela se assustou com a quantidade de sacolas. Meus braços doíam. Roupas de inverno pesam.
E carregar roupas de inverno em lojas de departamento a tarde inteira tinha me deixado com cãibras por todo o corpo. Nem sei como consegui sair do táxi e chegar até o elevador.
Ela gargalhava da minha situação e comentava com a amiga do outro lado da linha: “Man, you won’t believe me, my roomie has cramps because she has been shopping all day. Really, how fancy is that ? Better, who does that ?”
Eu ria pela ironia e pedia para ela me ajudar a subir no beliche — How fancy is to not be prepared for Winter, my dear – give me a hand here, for Christ ?!, eu adicionei.
Me sentia aliviada por ter roupas invernais não apenas para aquela temporada, mas para uma vida inteira, ao mesmo tempo que pensava que nunca mais compraria roupas e me preocupava com a conta do cartão de crédito final do mês, o dualismo da satisfação e da culpa na minha mente ganhava forma enquanto lá fora a neve derretia.
E dentro, minhas colegas de quarto desligavam o aquecedor.
Parecia que havia sido apenas uma nevasca fora de época mesmo.
Um falso alarme.
Ainda era Outono, e na outra manhã, para meu espanto, nem parecia que havia tido neve ali.
Ao retornar para o dormitório, no fim daquela sexta-feira ensolarada, ouvindo The Fear do Ben Howard, eu começava a perceber que essa coisa de estar sempre preparada para o clima, para o dia seguinte, para a vida é uma falácia. 
A gente pensa como aqueles que nos deram bons conselhos antes: com precaução, com atenção, com planejamento, com preparo.
Mas o que acontece é que a vida é sempre mais. Ou menos. Do que planejamos, do que inferimos, do que achávamos que será, seria.
Quando pensamos estar prontos para o dia seguinte, ela vem, às vezes com a melancolia da neve ou a euforia do sol, mas ela vem, às vezes sem avisar como um hóspede indesejado ou uma grata surpresa e nos tira aquilo que achamos saber: nossas pequenas e poucas certezas.
O verdadeiro inverno só chegou em Janeiro do outro ano. Quase uma estação atrasada.
E para celebrar o momento presente, a vinda e a ida repentina da neve, coloquei uma roupa nova — havia adicionado uns itens não-invernais no meio das compras também —, calcei o salto mais alto que tinha comigo, peguei uma câmera prata pequena, acho que era um dos primeiros modelos da cyber-shot e a posicionei, em modo de captura automática, encima da lareira do hall do meu andar.
O dormitório estava vazio. Minhas roomies ainda estavam em aula. A vizinha de quarto que sempre deixava a porta aberta, parecia também não estar. Eu era a única que podia tirar a minha própria foto ali.
E eu tirei duas. Gostei da primeira. A outra apaguei.
Logo em seguida, troquei o salto alto por uma sapatilha, e vesti um sobretudo sem muitos adornos e bem leve.  Retoquei o gloss cor de boca me olhando no pequeno espelho quadrado e torto que cobria a única parede “em comum” do quarto, quando as meninas chegaram e perguntaram para onde eu estava indo. Eu disse que queria sair para comer algo. Elas decidiram me acompanhar.
E lá fomos nós três, maquiadas e apropriadamente vestidas para o clima de 15 graus daquele início de noite, jantar no refeitório da faculdade. Fazia parte do nosso plano de refeições.
Isso foi há quase 7 anos.
E essa é a história por trás dessa foto.
Não foi uma noite de festas, nem de jovens adultos dançando e se embebedando até o amanhecer, nem muito menos a noite em que eu conheci alguém genial ou descobri um novo talento em mim. Nada disso.
Foi apenas mais um dia dentre tantos outros ordinários dias, a diferença é que mesmo com tão pouca experiência e breves e rasas indagações filosóficas,  aquela jovem mulher começava a se dar conta das imprevisibilidades da vida.
Assim como o clima em Boston, ninguém sabe exatamente o que dia de amanhã nos trará.
Se é sol, chuva ou neve.
Se é dor, se é glória, se é afeto ou desespero.
Um palpite é tudo o que de fato temos. 
Mas nos conforta achar que sabemos.
Pura falácia.

One thought on ““Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais ela te conta, menos você sabe.” (Diane Arbus)

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s